11.1.12

Obras do Vestibular Unicentro: Uma amor anarquista- Miguel Sanches Neto



Nincia Cecília Ribas Borges Teixeira 

Miguel Sanches Neto é escritor e crítico literário que passou a ser conhecido a partir dos anos 2000, quando se tornou um dos nomes mais representativos da nova literatura brasileira. Nascido em 1965, no interior do Paraná, Sanches Neto é um escritor eclético, que escreveu diversos gêneros. Formado em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa, ele também atua como crítico literário no jornal paranaense Gazeta do Povo e na revista Carta Capital.


A Obra Um Amor Anarquista é um romance histórico, ou seja, uma obra de literatura que aborda um período da história. A estrutura do romance é permeada por cartas escritas pelo fundador da colônia, o italiano Giovanni Rossi, sobre todos os aspectos relacionados a construção da colônia no Brasil.
Em Um Amor Anarquista, Miguel Sanches Neto conta, com incrível capacidade de persuasão, a história de um grupo de imigrantes italianos, que, no final do século XIX, na pequena cidade de Palmeira, no interior do Paraná, funda a Colônia Socialista Cecília, na qual tenta destruir o sistema tradicional da família e implantar o amor livre.
Idealizada por um militante anarquista italiano de nome Giovanni Rossi, a colônia Cecília constituiu-se na vivência prática de um ideal de liberdade. Como projeto, sua proposta era a de oferecer ao mundo uma prova da possibilidade de uma organização social onde a autoridade fosse inexistente. Motivado pela propaganda brasileira ao mercado de trabalho europeu, Rossi optou por fundar uma colônia no Brasil,acabou se instalando no Paraná, no município de Palmeira.  

Na liderança de Rossi, a Colônia Cecília foi composta, primeiramente, por 150 colonos. Após a construção das habitações coletivas e individuais, um dos primeiros problemas encontrados foi na divisão dos trabalhos: os artesãos fariam o que já faziam antes; mas os lavradores tiveram que reaprender sobre o plantio, por causa da diferença entre o solo brasileiro e italiano.
Após um ano de existência, a colônia passa por dificuldades sérias: pouca comida, ganância dos agricultores, famílias com muitas crianças e poucos trabalhadores, ciúmes que atrapalha a vida em conjunto; pais que impedem as filhas de praticar o amor livre, abandono dos jovens mais idealistas da colônia, sentindo-se frustrados, e querendo o barulho da cidade e o movimento do capitalismo; agricultores quebrando a estrutura anarquista por meio de votos, propriedade privada, etc.

Durante os anos de existência da colônia as ideologias anarquistas foram testadas. Apesar de os jovens adeptos do anarquismo estarem dispostos a fazer a experiência dar certo, as famílias já estruturadas não se adaptaram e, além disso, com suas cultura já estabelecida, não conseguiam seguir esses ideais. 
romance retrata o período de 1890 a 1894, no qual Giovanni Rossi lutou pela sobrevivência da Colônia Cecília, buscando novos adeptos, principalmente jovens dispostos a viver os princípios do anarquismo. Dessa forma, tentou tornar a colônia auto-suficiente, ou seja, fazer com que as necessidades dos moradores fossem supridas pela própria produção da colônia. Mas isso não aconteceu.

A conclusão de Giovanni para o fim da experiência da Colônia é de que uma sociedade anarquista é possível, uma vez que não exista laços familiares tradicionais, egoísmo e miséria, ou seja, que haja pessoas dispostas a trabalhar e viver pelo coletivo.
O processo de pesquisa de Um Amor Anarquista deu-se por meio de pesquisas a partir de um arquivo montado por um médico paranaense, Cândido de Mello Neto, que levantou a história da Colônia Cecília por um interesse familiar.
As principais dificuldades em se trabalhar a partir de um episódio histórico, e vertê-lo para a ficção, foram não fazer história, não defender uma tese. Ainda mais quando o tema é polêmico. O autor dedicou-se a este episódio com intenções literárias, sem nenhuma preocupação em defender ou refutar o anarquismo ou o socialismo. O que lhe chamou a atenção foi o drama humano vivido pelos personagens
O que mais impressionou o autor na experiência anarquista da Cecília e que o levou a escrever este romance foi o amor livre praticado numa província brasileira, numa região agrícola, em fins do século XIX. Ele sentiu na hora que poderia contar toda a aventura da colônia a partir daquele casamento poliândrico, em que uma mulher recebia contemporaneamente mais de um homem. Era uma coisa tão avançada para a época que ainda hoje causa espanto.
E também o destino final de Giovanni Rossi, que volta para a Itália e termina seus dias com a mulher que lhe serviu como experiência sociológica, criando como sua a filha nascida dos amores livres na Colônia. Surge então a pergunta central do livro, à qual a narrativa se baseia “seria constrangedor não conhecer a paternidade de um filho que você viesse a ter?”
Para Miguel Sanches Neto, Um amor anarquista foi um exercício de alteridade. Uma tentativa. Mas uma tentativa frustrada, porque a Colônia Cecília era uma colônia agrícola. Então eu a descrevi como se ela fosse Peabiru. Não é. Mas como é que se planta milho? Eu sabia, porque tinha plantado milho. Como é que se vive num lugar daquele, como é o pôr-do-sol de lá? Aquela experiência agrícola é toda autobiográfica, embora o livro seja histórico. O enredo é muito fiel à história. Nele, só existem duas personagens criadas por mim. Uma é a prostituta Maria Malacarne. Há boatos de que Giovanni Rossi, o idealizador da colônia, contratava prostitutas na cidade para servir aos anarquistas. Isso eu ouvia das famílias de descendentes da Colônia Cecília. No começo, era muito homem e pouca mulher, trabalho duro, comida pouca. Então, criei essa personagem que não existe, embora existam essas informações. E a segunda personagem criada por mim é outra prostituta, Narcisa. Rossi fala dela nos documentos sobre a colônia, mas não cita seu nome
Então, inventei um nome para ela. São essas as duas personagens que não têm nome de registro. Se vocês forem ao cemitério da Colônia Santa Bárbara, em Palmeira, vão encontrar os nomes dos outros personagens nos túmulos de lá. São absolutamente reais. Nesse livro, tentei me livrar um pouco da autobiografia, mas não consegui. No livro que acabei de terminar, e que está na editora, um romance demipolicial, também tentei fugir do universo da minha infância. Mas, desgraçadamente, seu narrador é um professor de literatura.
Pode-se dizer que o livro é  uma síntese do imigrante italiano: lágrimas, declarações, fome e sonhos.

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