27.8.12

TEMPO DE MENINO- DOMINGOS PELEGRINI


Nas cinco histórias reunidas em TEMPO DE MENINO há um claro tom de nostalgia e o delicioso  sabor de descoberta do mundo. São importantes episódios que, mesclando graça, ternura, ingenuidade e amargura, falam daquele tempo fascinante em que a criança começa a perceber um mundo novo: o mundo dos adultos. TEMPO DE MENINO traz a marca de um autor que sabe contar histórias, de modo fácil e envolvente. Ao relatar experiências importantes na vida de qualquer garoto, Domingos Pellegrini vai revelando a complexidade das relações humanas envolvidas em situações aparentemente banais. Um livro que, por certo, vai permitir ao leitor viver e reviver todo o encantamento do seu tempo de menino. Em cinco contos, o autor reconstitui emoções vividas por alguém que - na infância ou juventude - descobre o mundo.
  Em Tempo de Menino, Pellegrini afirma em entrevista à editora que publicou a obra, como as lembranças da infância, dos desentendimentos dos pais, do lado pessoal de uma forma geral, tiveram forte influência na sua literatura (1997). Em Meninos e meninas o autor confessa, em outra entrevista, como os contos, de uma forma geral, são recriações literárias de passagens da vida dele.
                       
  Todas [as obras] têm um pouco de mim aqui ou ali, de um jeito ou de outro. Às    vezes, sou o menino, às vezes, o pai. Glória é uma menina bem parecida com o   menino que eu fui. A menina de “Quadrondo” sofre com a separação dos pais   como sofri a dos meus. Já o conto “Volta ao mar” é uma espécie de continuação    poética de “Estação de mar”, conto que está no livro Tempo de menino. (...) Este  livro é como um casarão, só que reúne “contos parentes”. (1998, p.101)
“Visita ao Zoológico”: O pai prometera levar o filho ao zoológico, mas adiava sempre, pois era preciso que ele merecesse. Estava aprontando constantemente. Era muito travesso. 
Certo dia, tirara as agulhas de crochê da Vó para fazer ponta de flecha. Diante de suas reclamações, ainda respondera: 
“ – Que que a senhora faz com a aposentadoria do Vô? A senhora nunca põe um tostão em casa!” Pobre Vó. Chateada, ficou três dias trancada em seu quarto. Com certeza, ele ainda teria que continuar esperando a oportunidade para ir visitar o zoológico. 

Passaram-se vários domingos e nada! Até que num dia qualquer o seu sonho se realizou. Seu pai havia sido despedido do emprego e mesmo assim resolveu cumprir com a promessa: levá-lo ao zoológico. Falou que tinha aprendido com seu Vô que quando as coisas não vão bem, é hora de fazer uma festa. E assim, o garoto pediu pipoca, sorvete, chiclete... 
Seu pai não gostava de zoológico, porque os bichos ficam enjaulados e isto para ele, não tinha graça, despertava tristeza. 
Correu, brincou, observou atenciosamente os animais: tigre, gorila, girafa, zebra, cobra, jacaré... Estava na hora de voltar. Viu a onça e lembrou da mãe, porque estava sempre a ralhar por qualquer motivo. E o seu pai lhe disse que ela era uma mistura de galinha choca com loba braba. E a Vó, uma mistura de raposa com cobra; porém, na verdade, ela era apenas uma gatona velha.

No conto “Homem ao mar” em Tempo de menino (1997), Pellegrini conta a estória de pai e  filho que passaram por apuros depois que o filho caiu no mar revolto durante uma pescaria. O  autor narra da seguinte forma a preocupação do pai diante do perigo iminente:
Agora, o pai sabe que não tem tempo de explicar nada, sabe o que deve fazer e  faz. (...) pulou de ponta, sai de perto filho, vê que outra onda já vem vindo lá atrás.  Nada para frente! – grita aprontando – Vamos furar a onda! Lê o pensamento no  olhar do filho: será que ele ficou louco! (PELLEGRINI 1997: 67),
O conto “A última janta” faz uma metáfora interessante mesclando elementos de índices e informantes. Para isso o texto narra a estória de um menino que  morava com a mãe em uma pensão onde peões vinham jantar. A descoberta do mundo e das  coisas se dá por meio da mistura da comida e do processo de transformação que esta faz no  corpo humano. Em um dado momento um agenciador de nome Zé come diante do menino  que, como qualquer outro da sua idade, faz muitas perguntas. Na medida que o agenciador  come e mistura o arroz, o feijão, a carne, o menino pergunta e descobre novos mundos:
– Por que a gente come, Zé?
O agenciador riu; os peões da mesa riram.
– Bom – começou – tudo o que a gente come vira alguma coisa dentro da gente.
O menino ia abrindo a boca devagar, o queixo pendendo.
– O bife vira músculo. Deixa eu ver.
Apalpou o braço de menino.
(...) – E o arroz vira o quê?
– Arroz não é branco? Vira osso, vira dente.
(...)  – E o feijão?
O feijão banhava o fundo do prato, lambuzava os pedaços de bife; num canto ia
aparecendo abobrinha picada.
Uma das características mais marcantes do trabalho literário de Pellegrini são as muitas
históricas que envolvem crianças, na verdade, meninos, adolescentes homens ou jovens no início da idade adulta. Um viés que começou logo no início da carreira do escritor com a obra Meninos, de 1977. É importante fazer um breve parêntese para salientar a onipresença do nome “menino” em grande parte dos livros e/ou dos contos que o autor escreveu desde a década de 70. Logo após Meninos (1977), temos Os meninos crescem (1988),

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