22.8.13

A Jangada de Pedra – José Saramago

Autor

José de Sousa Saramago (16/11/1922 – 18/06/2012) nasceu em uma aldeia ao sul de Portugal. Autodidata, antes dedicar-se unicamente à literatura foi mecânico, serralheiro, desenhista industrial e também trabalhou como gerente de produção numa editora, e em 1947 iniciou sua atividade literária com o romance “Terra do Pecado”. Atinge a notoriedade em 1980 com a obra “Levantado do Chão”, tida hoje como seu grande primeiro romance. Em 1998 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura com A Jangada de Pedra, sendo o primeiro autor de língua portuguesa a fazê-lo.

Contexto Histórico

A Jangada de Pedra foi publicada quando Espanha e Portugal passaram a integrar o MCE – o Mercado Comum Europeu, hoje União Europeia. Tomando como ponto de partida uma série de casos insólitos, Saramago expressa claramente o descaso europeu ante as nações ibéricas. Neste contexto se instaura o realismo mágico na narrativa como meio de transgressão. Ao servir de instrumento à navegação exposta em texto, Saramago expressa assim a sua insatisfação em relação à Europa.

Análise da Obra

      Publicada em 1986, a obra de Saramago elenca uma série de ocorrências sobrenaturais que culminam no apartamento da Península Ibérica, que abandona a Europa ao tornar-se uma ilha enquanto se desloca à deriva através do Oceano Atlântico. A narrativa, tomada num tom de pressentimentos incertos e apocalípticos tem como ponto de partida a exposição de casos insólitos que permeiam as suas personagens principais, casos os quais se interligam no decorrer da narrativa que corre sobre o tempo psicológico.
      O Oceano Atlântico é o espaço onde a Península Ibérica perambula aos olhos de suas personagens principais: José Anaiço, professor português sempre acompanhado de uma nuvem de estorninhos, Maria Guavaira, moradora da Galiza que tem nas mãos um interminável fio de lã azul puxado de uma meia, Joaquim Sassa, português do Porto, turista numa praia ao norte de Portugal, o farmacêutico idoso Pedro Orce, espanhol da região de Orce, e a divorciada da região de Ereira Joana Carda, protagonista que ao riscar com uma vara o chão, dá início a série de acontecimentos que compõem a trama da obra.
      Usando uma crítica afiada e agressiva, Saramago, ao excluir literalmente a Península Ibérica da Europa fazendo-a navegar pelos oceanos de forma errante, faz-se valer do discurso irônico e do realista mágico, quase partindo para o lado surreal da literatura, não objetivando a dessacralização da história como já fez anteriormente em outras obras, mas sim para questionar o porvir, através de diálogos com antecedentes históricos expressos na intertextualidade, sugerindo uma solução para o futuro configurado pela mítica de um novo mundo.
      Toda a obra é remetida às diversas fases da literatura portuguesa, percebidas no heroísmo e estoicismo do homem português deslumbrado. A tradição camoniana tem forte presença inspiradora no texto, dando-lhe apelo dramático e épico. A Península ostenta o papel de um novo país, ou império, em busca de seu lugar no mundo. Enquanto vaga através do oceano traz dentro de si uma analogia secundaria com o expansionismo do latim, e em primeiro plano aponta o retorno de Portugal à navegação num sentido de descoberta de novo mundo.
      A longa viagem da Península tem seu fim após descer em direção das Américas, quando ancora na costa do Novo Mundo, chegando a uma nova terra em desenvolvimento, de cultura mais aberta em relação ao purismo europeu, de povos nascidos da miscigenação da colonização, espanhola e portuguesa.
       Por fim, a narrativa da obra descreve todo o caos instituído na Península a partir de sua separação da Europa, elencando seus problemas políticos, a falta de alimentos, apagões e mesmo alterações ecológicas, suscitando o prelúdio de um apocalipse dado em razão do descaso dos países europeus e pelos movimentos marítimos da “jangada.

Referências:

SARAMAGO, JOSÉ. A jangada de Pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.


De - Felipe Soares
Por: Diana Pretto


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