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Crítica de Cinema: Um cisne à procura de suas asas

Cartaz do filme "Cisne Negro", lançado em 2011

    É com um sonho da jovem bailarina Nina Sayers, que ganha vida através da interpretação de Natalie Portman, que Darren Aronofsky dá início ao intenso e perturbador suspense psicológico de Black Swan.
   Assim como em seus filmes anteriores, Aronofsky traz uma narrativa centrada na complexidade psicológica e nos problemas emocionais da personagem de Cisne Negro, uma bailarina que encara todo tipo de sacrifício, tanto físico quanto psicológico, em busca de uma inquietante perfeição. Nina mora com sua mãe, uma ex-bailarina, que deseja ver na filha a carreira que ela não conseguiu alcançar. Para isso, ela age de forma extremamente controladora com Nina, seja nas regras com sua alimentação e com seus horários ou no balé tecnicamente impecável que ela deve apresentar. Com 28 anos, Nina ainda está presa ao seu “eu” puro e inocente, qualidades refletidas em seu quarto infantilizado, cor de rosa e cheio de bichos de pelúcia. A bailarina se esforça para seguir os passos da mãe, que além de controladora também a superprotege, mostrando uma relação de dependência entre ambas e uma impressão de que Nina é propriedade única e exclusiva de sua mãe.
   O delírio e astúcia da trama começam a despontar quando Nina consegue o papel principal da obra de Tchaikovsky, a favorita “O Lago dos Cisnes”, que será apresentada, nas palavras do diretor artístico da companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel), em uma versão “real e visceral”. Nina também se torna a nova “primeira bailarina” da companhia, e, com o papel de Rainha dos Cisnes, ela terá, como tradição, que interpretar ambos: o Cisne Branco e o Cisne Negro. O Cisne Branco não é o problema, já que Nina partilha com o personagem a inocência, delicadeza e graciosidade, características enclausuradas em si desde a infância, o que a torna perfeita para o papel. Porém, o grande desafio da bailarina é se ela conseguirá de fato manter sua posição como Rainha dos Cisnes e interpretar o Cisne Negro que é, aparentemente, seu completo oposto e representa a malícia, a sensualidade e sedução. Para isso, Nina precisará acordar seu lado selvagem que foi reprimido ferozmente sua vida inteira. 

Ensaios na companhia de balé

    A presença de uma nova bailarina surge, a atraente e despretensiosa Lily (Mila Kunis), que se encaixa perfeitamente no papel de Cisne Negro. Diante deste cenário, Nina enxerga na bailarina tudo o que lhe falta para interpretar o perverso gêmeo negro com maestria e desencadeia em si a necessidade de ser como Lily, despertando uma paranoia obsessiva em busca de seu adormecido lado sombrio, que prejudica seu equilíbrio psicológico. 
  Para atingir seus objetivos, em vários momentos a protagonista procura tomar posse do que é do outro, desde materiais até o comportamento. De início, ela toma para si objetos pessoais de Beth (Winona Ryder), a ex-primeira bailarina. Mais tardiamente, Nina vem, então, a tomar seu lugar na companhia. Ela faz o mesmo com relação à Lily, da qual ela almeja obter sua personalidade espontânea, agressiva e sensual, caraterística do Cisne Negro. Também, fica implícito se Nina não tomou posse até mesmo do que era a figura da mãe, que, devido ao controle tão árduo que dispõe da vida da filha, tenha impedido talvez o desenvolvimento de uma personalidade própria da menina.
  Nina passa por inúmeros conflitos internos, e tem agora uma mente conturbada que confunde realidade com fantasia. A presença constante de espelhos nas cenas nos retrata o conflito que a protagonista vive interiormente, em que a Nina em frente ao espelho não é a mesma que aparece em seu reflexo. Ela vê uma Nina que é a personificação do Cisne Negro. Com seu lado sombrio despertando e tomando controle de sua mente, a bailarina alucina várias mutações físicas em seu corpo, como feridas em suas costas que posteriormente dariam lugar ao crescimento de suas “futuras asas”; do mesmo modo que a penugem acinzentada de um pequeno filhote de cisne posteriormente dá lugar a uma sublime plumagem. A pele apresenta toda uma questão de diálogo, característica constante nos filmes de Aronofsky, que passa através do contato com a mesma as angústias, sofrimentos e aflições do personagem, sentidos em carne viva pelo espectador.
  O papel de Rainha dos Cisnes, que vem destruindo intensamente a sanidade de Nina, leva-a a visitar Beth e devolver seus pertences. Se quando ela os tomou demonstrava o desejo de posse total do lugar de Beth, agora ela insinua o desgosto e recusa do mesmo.
   O tão aguardado dia de viver o seu sonho como Rainha dos Cisnes transforma-se em verdade para Nina. A bailarina que, até então, vivia como uma menina doce, pura e graciosa, desempenha com excelência o Cisne Branco. Mas, momentos antes de interpretar o emocionante e ameaçador Cisne Negro, Nina passa por um colapso psicológico em seu camarim. Ela fantasia estar lutando com Lily, dona do perfil adequado para o próximo ato da apresentação, o que não passa de mais um ilusão da mente já enlouquecida da bailarina, pois na verdade, ela luta consigo mesma, com seu Cisne Negro interior. Vivendo durante 28 anos em uma personalidade que não a pertence, Nina chegou ao seu inevitável momento de maior vulnerabilidade, que a permitiu despertar o seu outro “eu”. O espelho quebrado durante a luta simboliza a posse de seu gêmeo negro adormecido sobre si. A evidência aparece ao longo de sua performance como tal, em que Nina aparece tomada por características físicas do Cisne, com asas negras que surgem em suas costas, perfeita.

Nina, na apresentação "O Lago dos Cisnes"

   De maneira fascinante, Black Swan veio para mostrar com realismo o mundo do balé por trás das cortinas de veludo. O espetáculo de graça e leveza com belas danças que assistimos para nosso prazer é, nos bastidores, um show de humilhações, sacrifícios, cansaço e sofrimento.
   Em um roteiro intenso que mistura ficção com realidade, nos vemos diante da incerteza e da possibilidade de diversas interpretações dos acontecimentos. Aronofsky explora em seus personagens suas personalidades psíquicas, abordando de forma sensível e inteligente o limite do ser humano e obrigando o espectador a vivenciar as sensações dos próprios protagonistas. Ele mostrou a degradação de seus personagens em busca de seus sonhos individuais em Réquiem para um Sonho (2001), os limites físicos ultrapassados que anseiam por mais um momento de glória do protagonista de O Lutador (2008) e nos surpreende com os diversos princípios da psicologia inseridos em Cisne Negro (2010). O diretor consegue, em sua narrativa, transportar o espectador para a insegurança e instabilidade psíquica do personagem. A tensão aparente do roteiro fica por conta da edição rítmica, dos enquadramentos, elementos visuais, a clara caracterização da protagonista e a trilha sonora gritante.
    A atuação de Natalie Portman foi inegavelmente incrível. Completamente aberta ao papel, a atriz mostrou um desempenho brilhante com a personagem, inclusive como bailarina, que a levou a ganhar o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz com a interpretação da inicialmente encantadora Nina Sayers que, cada vez mais desequilibrada, adquire um comportamento autodestrutivo em busca de sua verdadeira personalidade.
    Cisne Negro vai além da fantasia e intensidade reveladas em cada cena. É um drama que demonstra da forma mais interessante possível o psicólogo humano e seus devaneios.



Texto: Marina Pierine

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