13.9.16

O fim da tarde

A tarde chegara ao fim, normalmente, como em qualquer outro dia, com o sol pondo-se com calma e sutileza no horizonte, escondendo-se aos poucos, e deixando todo o céu alaranjado e o mundo mais escuro conforme a noite ia nascendo. Não havia qualquer estranheza para quem caminhasse naquele intervalo de tempo entre as dezoito e as dezenove horas pelo centro, escondendo-se dentro dos casacos e tentando manter as mãos quentes dentro das luvas de lã, tampouco por quem estava entrando nas universidades particulares – pois eram as únicas instituições de ensino que funcionavam no dia, as demais estavam em greve -, com seus moletons com touca, suas mochilas que orgulhosamente estampam o nome do curso, e que carregam livros poucas vezes tocados. Ninguém notara nada de estranho naquele monótono e melancólico fim de dia, exceto por uma única pessoa, que na realidade, nem pode notar que o dia estava chegando ao seu fim, pois trancado dentro de seu apartamento, com as janelas fechadas e com cortinas, o que acontecia na exterioridade daquele recinto era uma mera suposição de sua mente.
            Mas, naquele momento em específico, em que o sol deitava-se, ele estava igualmente deitado, mas no chão. Seu rosto estava encostado no tapete que comprara há dois meses, substituindo um que havia comprado há quatro. Seus olhos fechados não conseguiam, então, perceber que a noite já estava lá, e que desde o primeiro momento em que se encontrou naquela situação já se passavam seis horas. Tudo isso era desconhecido, e apenas conseguia notar que aos poucos o dia tornava-se mais frio e que não poderia vestir um casaco. Além do frio, pode perceber que seu ouvido direito não estava funcionando completamente, afinal só conseguia ouvir claramente com o esquerdo o quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven que tocava em sua vitrola a laser, que havia importado do Japão; e permaneceu deitado, observando apenas com o olho esquerdo a parede branca, que tinha pendurada “Seine at Argenteuil”, de Monet, e imaginou-se como David, congelado numa capsula sonhando até que no futuro certo pudesse acordar triunfante. Quem dera pudesse montar a realidade mais agradável possível.
            Quando o vinil chegou ao fim, o silencio imperou pelo local, e pode-se dizer que ele sentiu-se em paz, e passou a imaginar o que gostaria de fazer naquele momento, ao invés de ficar jogado no chão: correr. Queria correr como já correra outrora, sem nada nos ouvidos, sentido o suor gelar seu rosto quando o vento vinha ao seu encontro, sentindo seus músculos se esquentarem aos poucos, conforme a velocidade ia aumentando. Queria sentir a sola de seus pés em contato com as pequenas pedras pontiagudas no chão, queria sentir a endorfina sendo liberada em seu corpo após correr. Queria ler um livro, qualquer um de sua estante, qualquer um já escrito no mundo: tudo que queria era poder jogar os olhos nas palavras e decifrá-las. Mas abriu os olhos e tudo que pode fazer foi permanecer imóvel. O frio aumentara, e passou a imaginar as pessoas caminhando pelas ruas já quase vazias às vinte e duas horas no inverno, com o termômetro na praça marcando menos cinco graus, levando em suas cabeças toucas feitas de tricô, ou de qualquer coisa, trazendo jaquetas de couro e blusas de lã; imaginava também as pessoas dentro de suas casas, algumas com os aquecedores ligados, outras botando lenha no fogão, e outras simplesmente passando frio, tendo poucas roupas e dormindo com apenas um cobertor – ou nenhum. Imaginava o frio porque agora o sentia numa intensidade muito maior que antes, e julgava que esperar até o amanhecer seria complicado. Vestia uma camisa social e uma calça jeans, apenas, com os pés descalços e gelados, e com a cabeça nua – que apenas tinha o lado direito quente pelo constante contado com o tapete. Sua posição era a mesma que a do instante em que caiu, enquanto caminhava pela casa descalço e após voltar do trabalho para almoçar, comendo um sanduíche com uma xícara de chá. E a xícara quebrada o incomodou nos trinta primeiros minutos, do mesmo modo que as formigas começavam a ir para o pão o atormentavam, marchando de forma homogênea e mecânica. O silêncio era tamanho que ele precisou de muito tempo para perceber que aquilo não era uma ausência de som, mas sim uma incapacidade de percebê-lo: seu ouvido esquerdo também parava, aos poucos, de funcionar. Seu olho direito nem abria, e a visão com o esquerdo tornava-se turva, e uma agonia indescritível tomou conta de sua mente quando percebeu que não era um problema com a luminária de cristais. O quadro de Monet aos poucos perdia a alegria e virava algo obscuro.
            Não podia ouvir, mas tinha certeza que seu celular estava tocando, pois havia tocado algumas vezes durante a tarde, e seria estranho se isso não ocorresse: acabou perdendo uma reunião. Entretanto, não era a reunião perdida que ocupava espaço em seus pensamentos, mas sim seu contato com o mundo exterior, que aos poucos dissipava-se: não ouvia nem via nada, e o frio sumia de forma aconchegante. Sua mente tinha os versos de reservations, “how can I convince you it's me I don't like?”.

De seus olhos fechados, escorreram lágrimas, e durante a madrugada, o sereno caiu sobre os taxis parados nas praças e depois o sol agradável das nove e meia iluminou a ambulância que corria até ele, mesmo sendo tarde demais. 

Douglas Kuspiosz

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