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De Rambo a Reagan

Foto: Pinterest

  Os Estudos Culturais são um campo amplo e flexível que se encontra em constante construção. Exaltando o popular e criticando a desigualdade e a dominação social, os Estudos Culturais se concentram em temas como as teorias feministas, a multicultura, as etnias, a classe e o sexo. Analisa também como tudo isso se insere e se comporta na mídia.
  Ler politicamente a cultura da mídia significa entender o seu contexto, seu discurso, seus códigos e suas imagens, absorvendo posições políticas e ideológicas.
  Durante a década de 1980, sob o comando do presidente Ronald Reagan, os Estados Unidos estava caminhando junto ao conservadorismo que predominava nas áreas políticas, sociais, econômicas e culturais. Com o fim da década de 1970 e a retirada das tropas americanas do Vietnã, o país passava por um período de descrença e insegurança quanto à situação em que viviam. Os gastos militares com a Guerra do Vietnã haviam desvalorizado o dólar e a crise atingia os setores políticos, sociais e econômicos. Nesse contexto, com a chegada de Reagan e a “Nova Direita” a Casa Branca em 1981, os Estados Unidos começa a viver um período de conservadorismo e empreendimento armamentista. Porém a postura conservadora não se limitava aos setores políticos e econômicos, a hegemonia direitista também estava inserida no campo cultural dos Estados Unidos.
  A cultura da mídia abre um leque de grupos sociais em competição, cada qual lutando pelos seus posicionamentos políticos, sociais e econômicos. Ideologias são projetadas na mídia, em jornais, revistas, rádios, televisão e no cinema.
  Douglas Kellner (2001) afirma que a cultura da mídia ajuda a estabelecer a hegemonia de determinados grupos e projetos políticos. Assim, representam suas ideologias a fim de tentar induzir os indivíduos a simpatizarem com certas posições políticas. O cinema, tanto quanto os outros meios de comunicação, emerge como um canal de expressão de tais discursos.
  Debruçando-se sobre esse contexto, o autor apresenta obras cinematográficas como Rambo (1982) e Top Gun (1986) como representações do governo Reagan e sua guinada direitista sobre os Estados Unidos. Explorando ideologias masculinizadas e patrióticas, ambos os filmes são exemplos de como Reagan estava em busca do reestabelecimento do poder branco masculino após a derrota na Guerra do Vietnã e a crise que assolava o país. Rambo surge como a representação do herói que emerge em um cenário de adversidade, semelhante ao que Reagan queria fazer com o próprio país.
  Douglas Kellner aponta a trilogia Rambo como uma das maiores expressões ideológicas da era Reagan, o personagem é a representação dos ideais da direita estadunidense.
  O autor ressalta que as pessoas devem saber discernir as mensagens, valores e ideologias que são representados pela cultura da mídia em suas mais variadas extensões.
Alegando que a ideologia faz parte de um sistema de dominação que suprime os grupos reprimidos e reforça estereótipos, o autor cita exemplos como a figura projetada da mulher na mídia, como passiva, doméstica e submissa ao marido.
  Douglas Kellner propõe então uma análise sobre o modo como a cultura da mídia transcodifica as posições dentro dos conflitos políticos, oferecendo modelos através de imagens, espetáculos, discursos, narrativas e outras formas culturais. O autor explana então a questão da eficácia da cultura da mídia na composição das sociedades contemporâneas alegando que não existe apenas uma ideologia dominante, mas sim várias.
  A trilogia Rambo apresenta um conjunto de ideias que ganha espaço na sociedade estadunidense na década de 1980, seguindo uma tendência no cinema que teve seu auge desde fins da década de 1970, os filmes tratam de questões que estão intimamente associadas ao contexto conservador da época. Rambo assume papel de porta-voz no discurso conservador no cinema.
  É importante ressaltar a correlação entre a obra cinematográfica e o tempo de Reagan na Casa Branca, entre a ideologia conservadora da “Nova Direita” e suas representações no cinema culminando no impacto sobre a sociedade.
  Durante a trilogia são expostas questões como o militarismo, a masculinização, o retorno ao Vietnã, o individualismo e o desprezo em relação ao “inimigo”, representados como o estrangeiro, em especial vietnamitas, árabes e soviéticos. Isto é, os filmes explanam argumentos presentes no debate político, cultural e social durante o período Reagan, que tem relação com a narrativa, os discursos, e a representação da trilogia Rambo.
  John Rambo é um soldado americano que lutou e foi mantido prisioneiro durante a Guerra do Vietnã. Após conseguir escapar ele retorna a seu país em busca dos seus antigos amigos de combate, que por infortúnio estão todos mortos.
  Rambo é uma figura heroica, porém encarado como um protagonista marginal, incompreendido pela sociedade. É o contrário do até então galã do cinema clássico. Ele busca apenas paz, mas ao cruzar com o xerife da cidade Will Teasle, que o confunde com um mero criminoso, ele é escoltado para fora da cidade. Como Rambo faz o retorno para voltar a cidade, ele é preso injustamente e levado à delegacia local onde se inicia toda a odisseia vivida pelo protagonista. Certas ações dos policiais desencadeiam em Rambo, flashs de memórias da prisão no Vietnã, em que ele aparece sendo torturado pelos oficiais vietnamitas. Isso o leva a atacar todos os policiais presentes na delegacia, prosseguindo em fuga após furtar uma motocicleta. Ele segue a estrada em direção à montanha sendo perseguido pelo xerife, que transforma essa busca em uma missão pessoal de captura.
  Refugiado na montanha, Rambo demonstra todas as suas habilidades de uma máquina de guerra. Ele faz armas e armadilhas com tudo o que está a sua disposição, tanto que em uma primeira investida ele consegue ferir todos os policiais envolvidos, ele se camufla e se movimenta na floresta de modo que nenhum dos oficiais consegue alcança-lo. Quando ele tem a chance de matar o xerife, durante a primeira investida, ele o deixa vivo e diz “-Eu só quero ficar em paz”. Isso parece alimentar o ódio do oficial que mobiliza o seu distrito e a policia estadual para encontrar Rambo. Esse é o estopim para a guerra que vem a seguir, um único homem consegue acabar com inúmeros policiais, destaque para uma frase dita pelo Coronel Trautman (recrutador, treinador e comandante de Rambo no Vietnã) quando o mesmo chega ao acampamento da polícia tentando reaver o protagonista. “-Eu não vim aqui para salvar o Rambo de vocês, vim para salvar vocês do Rambo”. Ele descreve seu pupilo como uma exímia máquina de guerra, capaz de se adaptar as mais horríveis situações e sobreviver, Rambo é um sobrevivente e é isso que presenciamos durante todo o filme.
  Rambo foi uma franquia que marcou os anos 1980 e apresentou um protagonista que veio a se tornar um ícone mundial.
  A trilogia entra em harmonia com as políticas e o ideal do conservadorismo do governo Reagan, pois na medida em que cultua através das imagens a utilização de armamentos tecnológicos, reforçando a corrida armamentista e os gastos militares, ela legitima essas políticas frente à sociedade.
  Se Rambo foi a personificação da Era Reagan, Sergei Eisenstein era a representação dos novos ideias russos após a revolução de 1917. Seus filmes tinham o objetivo de difundir uma cultura de origem proletária, que viesse dos próprios operários, concebendo, desse modo, uma superestrutura que fortalecesse a ideologia soviética da época.
  Sua obra, Outubro (1927), foi encomendada pelo Estado Soviético a fim de criar um registro do passado, em torno de questões extraídas dos fatos que ocorreram em 1917. Neste filme Eisenstein expõe através do socialismo e do marxismo o ideal de coletividade que se propagava na época.
  O cinema está recheado de representações ideológicas. Leni Riefenstahl era a escolha do Partido Nacional Socialista Alemão para produzir filmes que enaltecessem as crenças do III Reich.
Para cada período e contexto a cultura da mídia oferece vastas representações e modelos ideológicos, oferecendo novos pontos de vista, teorias e pressupostos, que alimentam o senso comum legitimando valores e pensamentos.
  Douglas Kellner explana a questão de como a cultura da mídia trabalha a ideologia que é disseminada através de produtos midiáticos, incitando o público a assumir um posicionamento crítico a partir do que é recebido pela mídia.

  Rambo é um dos exemplos vigentes na cultura da mídia durante o governo Reagan, apontando produtos que serviram aos interesses partidários do país na época, como o enaltecimento do orgulho americano pós Vietnã, a corrida armamentista e o alistamento nas forças militares.

Angelo Crystovam

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