6.12.16

Her: A sutileza trágica de um relacionamento incomum


Cartaz do filme, lançado em 2013


  Theodore (Joaquin Phoenix) é um escritor de cartas por encomenda e, estando em meio a um complicado processo de divórcio, apaixona-se por sua assistente pessoal – um sistema operacional. Her (2014), filme escrito e dirigido por Spike Jonze, é, em sua superfície, um filme que trata do amor; porém, carrega em si uma carga de conteúdo que vai além, discutindo temas como a efemeridade dos relacionamentos, o uso excessivo de tecnologia e a solidão.
   Sensível, tímido e constantemente confuso com relação à vida, Theodore, quando não está trabalhando, passa seu tempo em casa com seu videogame ou saindo com seus amigos Charles (Matt Letscher) e Amy (Amy Adams), característica que, de certo modo, não o faz ser um clichê de pessoa antissocial; ele, então, adquire o OS1, um sistema operacional com inteligência artificial feminina chamado Samatha (Scarlet Johansson). O relacionamento de Samatha e Theodore surge e se desenvolve de forma gradual: num primeiro momento ela apenas faz sua função de assistente pessoal, lendo seus e-mails, conferindo sua agenda, revisando seus textos e etc., porém, aos poucos, cria-se um laço afetivo entre eles e então, Theodore percebe que Samatha, muito mais que um simples sistema operacional, é capaz de desenvolver sentimentos, entende-los e retribuí-los. Ela, ainda, mostra-se tão insegura e confusa com a vida quanto os outros personagens, pois, em vários momentos, questiona-se sobre sua existência, pega-se preocupada com o fato de não possuir um corpo e a cada minuto do filme, evolui.
   Há, também, a história do relacionamento de Theodore com sua esposa, Catherine (Rooney Mara), contada através de flashbacks que funcionam muito bem no filme e são necessários à narrativa; é possível notar nitidamente os efeitos que a separação causaram a Theodore; sua dificuldade de lidar com o fato é expressa quando eles se encontram para assinar os papeis do divórcio e Catherine, após saber que ele está se relacionando com um OS, diz que isso é resultado de sua incapacidade de lidar com relacionamentos reais. Rooney Mara está muito bem nas poucas vezes em que aparece em cena, seja nas cenas que remetem ao bom período do seu relacionamento com Thedore ou quando as coisas já não estão bem – sendo aqui uma personagem muito fria.
   A sutileza é resultado da cinematografia de Hoyte van Hoytema, composta basicamente pelas três cores primárias. As cores pasteis fazem com que os cenários estejam de acordo com o estado emocional de Theodore – este caracterizado quase sempre com cores de acordo com o cenário.
   O universo do filme é ambientado num futuro relativamente próximo, e assim, toma certas liberdades em relação à tecnologia, entretanto, permanece num período suspostamente próximo para que ainda seja relevante e inevitavelmente amedrontador: até onde o uso da tecnologia interferirá nas relações humanas? Ao tratar desse tema o filme acerta em cheio, afinal, estamos vivendo um período de desenvolvimento e compreensão das ações da tecnologia dentro da vida humana – em muitas cenas do filme vê-se pessoas com sua atenção totalmente centrada em seus celulares, conversando com seus OS e cada vez mais deixando de lado a interação entre pessoas. E isso está presente desde o primeiro momento do filme: Theodore trabalha em uma empresa que “terceiriza” cartas, ou seja, que escreve e envia cartas por encomenda. Porém, essa (in)relação humana não é total e, o filme, já no terceiro arco, tem um desenrolar consideravelmente otimista.
   Um dos pontos negativos foi a substituição de Samantha Morton para o papel de Samatha. Apesar de ser uma personagem que se expressa apenas através de sua voz, o fato de ser uma voz tão característica como a de Scarlet Johansson tira um pouco da capacidade imaginativa do expectador. Assim, constantemente, é possível pegar-me com a imagem da atriz em sua mente.
   Em suma, Her é um filme delicado, bonito e propõe, muito mais que uma simples história de amor, uma série discussões sobre o uso da tecnologia no século XVI; Spike Jonze, já conhecido pela direção de Being John Malkovich, desenvolve o filme sem grandes problemas, exceto no terceiro ato onde o filme, de certa forma, termina de forma simples; os dois pontos fortes são o roteiro e o elenco que, mesmo sendo bom, poderia ser um pouco melhor aproveitado – como a personagem de Amy Adams, por exemplo, que estava muito bem em American Hustle (2013) e aqui deixa a sensação que poderia ser melhor aproveitada.

Texto: Marina Pierine

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