19.4.11

... E o livro levou

Eu ainda não sabia, mas aquele seria um dia inesquecível.
Andando pela rua, deparei com um senhor de pele enrugada, baixinho, sorridente, que levava uma revista na mão. Com uma voz animada e imponente, me cumprimentou: “Olá, bom-dia!”.
Tinha o rosto familiar, sabia que o conhecia de algum lugar, talvez dos corredores da universidade onde estudo jornalismo, mas nunca reparara nos olhos dele, escondidos atrás de uma lente de vidro.
Conversando com aquele velhinho simpático, em um banco qualquer, a primeira coisa que me mostrou foi a revista de uma famosa biblioteca de São Paulo, que visitara havia alguns dias. Aos poucos, foi me contando sua história, seu amor pelos mais variados livros.
Seu nome é Carlos Wirthman, morador do bairro Cascavel em Guarapuava, município paranaense localizado a 247 quilômetros de Curitiba, personagem de capa e espada, de moinhos de vento.


Perto dos 80 anos, Seu Carlos reconheceu um novo amor, que o acompanha por onde vá.

Vários mundos

Aos 77 anos, conhecido pelos amigos como Seu Carlos, tem boa vontade, paciência, “jeitinho” e muita inteligência. E se orgulha sempre de dizer: “Amo ler, a leitura nos faz viver em vários mundos”.
Humilde, bem-humorado, disposto, culto, simpático, guerreiro, educado. Posso garantir que, em trinta minutos de bate-papo, passei por diversos lugares do mundo, aprendi que Buenos Aires tem um acervo de livros incrível, que a leitura faz bem para a alma e, principalmente, que idade não faz diferença alguma; pelo contrário, digo que ele está melhor que todos os jovens que conheço.
Com um bonito sorriso no rosto, conta que se dedicou mais à leitura depois da aposentadoria. É impressionante, Seu Carlos conhece diversos livros, autores e até mesmo línguas.


O livro a gente cheira, acaricia, cuida, como da mulher que se ama.

Para ele, a leitura é o melhor momento do dia. Quando o assunto é literatura, o livro ...E o Vento Levou, de Margaret Mitchell, está na lista dos preferidos. Sabiamente, sorrindo sempre, explica: “Tratou sobre a Guerra da Secessão [a Guerra Civil Americana, entre os anos de 1861 e 1865, opondo o norte, mais rico e industrializado, ao sul, mais rural, nos Estados Unidos], não era apenas um romance, tem todo um contexto histórico nele”.
Além disso, sua maior vontade é a de propagar a leitura, mostrar para crianças, jovens, adultos e idosos que leitura é como um espetáculo de magia: tem ilusionismo, criatividade e coelhos na cartola.

Compartilhando livros

Inspirado em projeto de São Paulo, teve a ideia de esquecer o seu livro. Seu Carlos chegou ao banco da praça do bairro Santa Cruz, sentou, leu o livro e deixou um bilhetinho na contracapa: “Esqueça o livro você também”. Fez essa experiência com três livros e, para a sua felicidade, em uma tarde qualquer, caminhando pela mesma praça onde deixava os livros, encontrou um deles. “Sinceramente, pensei que nunca mais iria encontrar um dos livros. Me enganei, alguém esqueceu o livro também”, aprova.
Seu Carlos participa da Universidade da Terceira Idade; estuda matemática, viaja e lê muito. Mas de leitura não tem preferência, não: lê bula de remédio, receita de bolo, enciclopédia, dicionário, gibi. “Não vivo sem a leitura, leio o que aparecer”, diverte-se.
Histórias como a de Seu Carlos estão sempre prontas a ser folheadas, na biblioteca aberta da vida. Ele é mesmo um exemplo a ser seguido, um senhor encantador que mora no interior do Paraná, mas conhece o mundo inteiro por meio da leitura.
Não tenho a menor dúvida de que poderia passar a tarde toda contando um pouco de tudo que sabe dos romances policiais, históricos, de amor, que qualquer um iria adorar.
Pois se posso dar um conselho a você, leitor, na próxima oportunidade que vir Seu Carlos passar por aí, esse e muitos outros Seu Carlos que existem e ainda vão existir, pare e aproveite.

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