29.9.16

Paratleta, para exemplo

Após acidente de motocicleta, Geriel Batista fica paraplégico, mas não abandona o esporte e a alegria de viver.
Foto do arquivo pessoal
Só risos, exemplo e esporte. Geriel Batista, 21, não sabe esconder a alegria de viver em momento algum. O esportista que aos 20 anos sofreu um acidente na cidade de Guarapuava – PR, deixa todo problema de lado e ri de um mundo que para si é só felicidade.
Geriel é como a mãe, que o cuidou durante os quatro meses em que estava impossibilitado de sair da cama. Os dois conversam pelo olhar, olhos que sorriem um para o outro e fazem as bocas só rirem uma para outra. A mulher é só agradecimento pela vida do filho, esse que faz o mesmo repetindo a cada pouco o quanto é grato a Deus pela sua oportunidade de continuar na vida, no esporte.
É bonito o ver com a cadeira de rodas, a forma como a conduz e quando tenta fazer movimentos diferentes com ela. Geriel e a cadeira parecem um só. A cadeira virou suas pernas, ele o tronco dela. Se vê nos olhos que Geriel, a cadeira e o esporte são melhores amigos e a amizade é sincera.
Em entrevista para o Blog Plural, atleta conta sobre sua vida esportiva antes e depois do acidente.
Sabrina: Com quantos anos e como você começou no esporte?
Geriel: Em 2009, tinha quinze anos. Começou como uma brincadeira, eu jogava futebol e meus amigos começaram a me chamar para correr e fui. Ganhei de um homem que era campeão paranaense, eu não sabia, ele tinha acabado de ser campeão em Campo Mourão. Então comecei a treinar e me arrumaram um treinador. Acabei indo também para lá, me federei durante dois anos e pouco e Londrina comprou minha federação, lá competia em nível nacional. Fiquei um ano e seis meses, voltei para Guarapuava, mas continuava federado. Era metido a jogar vôlei também, mas só quebrava meus dedos, não deu muito certo.
S: Sua corrida era profissionalmente?
Geriel: Sim, desde 2012. Me federei pela CBAT que é como uma carteirinha que prova que sou atleta. Eu corria só prova que possui um calendário, lá tem uma meta e quem não a cumpre não pode participar.
S: Qual foi a meta que você alcançou e te surpreendeu?
G: O Brasileiro de 2013 em Timbó – Santa Catarina. Os corredores eram os dois melhores de cada estado e dois que o estado apenas levava para participar. Nunca tinha ido para uma competição como essa, quase cinco mil atletas no total que se dividiam nas competições. Fiquei deslumbrado com a estrutura, com o hotel, algo que nunca tinha visto. Cheguei para correr quatro quilômetros, pensei que faria em torno de 12 minutos que é um tempo bom. O calor estava em 40º, meu tempo foi 11 minutos e 50, mesmo treinando não pensei que faria isso, mas na emoção fiz. Depois disso demorei cerca de três meses para conseguir o mesmo tempo.
S: Como você chegou até o campeonato brasileiro?
G: Eu estava com o pé machucado, eram quatro provas, índices que chamamos. Uma prova é em janeiro, a outra em julho, outubro e dezembro, para que consiga um bom índice e corra na corrida nacional. Eu havia perdido três, estava gripado e era a única chance. Uma semana antes fui em uma chácara e um cavalo pisou no meu pé, desanimei até que mandaram a passagem que a prova era em São José dos Pinhais.
S: A média que você teria que conseguir era alta?
G: Era, eu teria que correr oitocentos metros e a média dos outros corredores era um minuto e 55 e havia feito um min e 57, mas eles haviam corrido pelo FAP e nessa competição feito um min e 53, essa era a média que e precisava. Fiz um min e 52 e empatei com mais dois atletas. Para o Brasileiro só iria os dois melhores tempos, o outro até vai para a corrida, mas sem credencial que era o que queria. Então, consegui passar e fui para o Brasileiro.
S: O Brasileiro foi o campeonato que você mais gostou de participar?
G: Foi, é muito difícil de conseguir estar lá.
S: Fora corrida, quais esportes você costumava praticar:
G: Vôlei e handebol, eu gostava muito. A gente tinha um terreno baldio aqui e ficamos mais de um mês carpindo e arrumando para criar um campo de jogo de vôlei. Em dias de semana a gente até jogava em estádio, mas era vôlei e handebol mesmo.
S: Em qual momento da sua vida você se viu um bom atleta?
G: Vários, na verdade. Quando fui convidado para uma corrida na Argentina, por exemplo, o pessoal me chamou para correr lá porque tinha um tempo bom, e era tudo pago para mim. Chegando lá havia muita gente, larguei pela elite, fiquei em sexto lugar. Todo mundo vinha falar comigo. essa é a sensação de chegar em uma prova e fazer melhor do que esperava. Mas também já fiz pior.
S: Qual era sua média de treino?
G: Eu tinha uma planilha de treino e dava em torno de cento e vinte quilômetros semanais com descanso. Esse descanso era nas segundas-feiras, porque as provas são sempre em sábado e domingo, o corpo acaba criando rotina e se descansasse final de semana iria acostumar.
S: Como é o basquete para você?
G: Faz pouco tempo que estou jogando, mas acerto bem mais cesta do que antes. O que muda é o fato de jogar sentado, é mais difícil, a bola fica mais pesada. Esse ano teve o Paranaense, ainda não participei porque estou jogando a quatro meses. Melhorei muito, não só no basquete, mas fisicamente e psicologicamente também. Eu também estou procurando uma cadeira para hand-bike, mas ela é cara. Quando conseguir vou treinar para as paraolimpíadas.
S: Esse é seu novo objetivo?
G: É. Daqui um ano, um ano e meio quero estar em uma paraolimpíada. Coloquei isso na cabeça, mesmo que demore mais ou menos, quero isso.
S: Você considera que o esporte te deu certo ânimo?
G: Sim, muito. Eu até brinco que posso fazer várias coisas, mas não é igual. Sou muito competitivo, me sinto melhor praticando esporte. Me sinto alguém, me identifico muito
S: Como foi para você o momento que você voltou a jogar depois do acidente?
G: Foi difícil, mais que quando comecei a jogar antes do acidente. É que era acostumado a fazer tudo em pé e de repente era tudo sentado. Na verdade, até o peso das coisas muda. Eu sinto só os braços e pescoço, no peito já não tenho movimento nenhum. Eu fui me adaptando na verdade.
S: Como aconteceu o acidente?
G: Foi em 26 de outubro do ano passado, eu e minha esposa estávamos voltando para casa, subindo a Manoel Ribas, um carro veio sentido Lagoa – Santana e era nossa preferencial. O médico deu dois por cento de chance de sobrevivência. Não lembro de nada, o acidente foi domingo e só acordei na quinta. Minha esposa acordou na segunda-feira. Fiquei quatro meses e seis dias só de cama, não podia erguer um copo de água. Minha coluna possui ferros que estão dos dois lados para dar sustentabilidade. O rompimento medular foi completo, mas penso que isso não é nada, tenho cadeira de roda e vou para lá e para cá. Algumas vezes eu desanimo, mas é questão de alguns minutos, uma hora, mas é normal, qualquer pessoa acorda meio chateada e isso é normal.
S: Com quantos anos você estava?
G: 20.
S: O que passou na sua mente sobre essa adaptação que você teria que fazer?
G: O médico foi explicando sobre meu acidente e só pensei que havia complicado tudo. Eu sabia que existia esporte para quem tem deficiência como eu, só que eu não tinha movimento do pescoço para baixo, estava tetraplégico. O movimento do braço foi voltando, comecei a mexer os dedos e a fisioterapia ajudou. Meu braço esquerdo tem três fraturas, mas voltei a ter movimentos até a parte do peito. Dizem que meus movimentos das pernas não vão voltar, mas quem sabe um dia e se não voltarem não tem problema acho que tenho que aproveitar a vida da mesma forma.
S: Como foram suas primeiras fisioterapias?
G: Doídas (risos). Comecei a praticar esporte nelas a quatro meses atrás. Faço fisioterapia na Guairacá e eles fazem uns questionários, sempre falei de esporte e a fisioterapeuta elaborou os tratamentos com bola e agora não paro mais.
S: Foi com a fisioterapia que você voltou para o esporte?
G: Sim, eu estava esperando ficar mais seguro porque doía. Cheguei na fisioterapia e mesmo assim doía, mas fui fazendo lançamento, era em um círculo e eu jogava no chão, ela mal pingava e foi até que me convidaram para jogar basquete. Fui assistir ao jogo, mas como não conseguia me transferir de uma cadeira a outra o pessoal me ajudava. Comecei a participar dos jogos, agora já faço transferência e sei jogar.
 S: Depois de quanto tempo do acidente que você voltou para o esporte?
G: Depois de seis meses.
S: Qual a sensação no seu primeiro contato com o esporte?
G: Na hora parecia que não era verdade. Quando cheguei em casa chorei, foi uma sensação de alívio, de que poderia fazer algo. Esse foi um incentivo. Fui ao médico e ele me disse para parar que eu teria que fazer mais uma cirurgia e eu disse que não e nem fiz a cirurgia. Com os treinos de basquete criou uma musculatura e fortaleceu, nem precisei fazê-la.
S: Você prática mais algum esporte no seu tratamento?
G: Não, me convidaram para jogar ping-pong, mas fora da fisioterapia. Se der vou, o que der para fazer eu faço sabe, mas quero ficar mesmo no hand-bike que é o ciclismo.
S: Aqui em Guarapuava há pouca opção para paratletas?
G:  Apenas duas. Na verdade, é muito pouco, só o baquete e o ping-pong que vai abrir. Havia o pessoal que fazia um treino fechado e eles que vão estar ensinando a jogar.
S: Aqui no município ainda não há competições?
G: Não. De hand-bike só tem em Curitiba e Maringá.
S: Como funciona o hand-bike?
G: É como um triciclo. Duas rodas dos lados e uma na frente, o banco é inclinado e você regula conforme a lesão que você tem e controla tudo na frente. Conforme seu movimento a perna vai junto, mas o controle é todo com a mão.
S: Antes você recebia patrocínio, mas e agora há ofertas?
G: Não, aqui na verdade, não tem muito esporte. Antes recebia um pouco, o que a gente chama de incentivo.
S: Você acha que Guarapuava ter um crescimento no sentido de esporte?
G: Acho que pouca coisa, porque desde quando eu corria a cidade nunca foi federada em algumas coisas. Por isso que normalmente o pessoal daqui vai praticar esportes por outras cidades.
S: Isso acontece só em Guarapuava ou em todo o estado?
G: Eu acho que mais aqui. Nas outras cidades que morei a secretaria de esporte por exemplo estava sempre procurando coisas novas. Não só projetos tão grandes, mas o pessoal que participa consegue evoluir.
S: Como você tem vontade de participar de campeonatos, o que acha que isso vai mudar para você?
G: Força de vontade eu já tenho, mas é que coloquei na cabeça e quero conseguir, caso não consiga vou continuar treinando, não vou parar. O que aconteceu comigo abala muito o psicológico, alguns amigos meus que jogam basquete também não sabiam dessa possibilidade. Uns fazem dez e até 15 anos que são cadeirantes, eles me falaram que já pensaram em suicídio, ficavam o dia todo trancado e quando saiam acabavam caindo com a cadeira.
S: Em algum momento passou na sua cabeça esse desânimo e o pensamento de não ter mais vontade de viver?
G: Não. Já fiquei triste, e quando soube que havia perdido os movimentos parecia que estava me acidentando de novo. Mas nunca pensei nisso, sempre tive na cabeça que vou melhorar, isso demora, mas mesmo assim estou vivo e me divertindo porque vou desanimar tanto? Tenho a oportunidade de estar vivo e essa outra ideia não bate comigo.
S: Vocês possuem um time fechado?
G: Sim, treinamos em torno de 12 pessoas e uma é mulher também.
S: São todos cadeirantes?
G: Olha, tem gente por exemplo que não tem uma perna e joga com a muleta, mas a maioria é cadeirante.
S: Como é a rotina de treino de vocês?
G: A nossa treinadora Bruna faz um treino puxado, mas cada um vai até seu limite. Ela tem que exigir e você exigir de si para não ficar na mesmice.
S: Alguma coisa muda na sua alimentação para o treino?
G: Como algo mais leve, porque se comer algo pesado pode ser que passe mal, é que com a cadeira embala muito quando jogo. E se hidratar muito.
S: Você disse que é competitivo, mas e nos treinos como é essa competição entre vocês?
G: Todos somos, principalmente quando fazemos competições de arremesso. É tudo na brincadeira, mas ninguém quer perder, acho que é meio normal. Se alguém erra algo rimos e criamos essa rivalidade que não é ruim, é uma forma de melhorar e se dedicar mais.
S: Tem alguém fora da fisioterapia e família que te incentivou ao esporte?
G: Meus amigos Luciano e Ailton, eles que vinham me buscar e me incentivando. Um deles está seis anos com cadeira de rodas e sofreu acidente de moto também e o outro já tem vinte anos com a cadeira. Um joga a quatro anos e o outro a doze.
S: Você tem eles como exemplo?
G: Exatamente, eles eu falo que são meus padrinhos. Eu até sabia que tinha o basquete, mas não havia como me locomover até lá e eles me buscavam, eu quase nem gostava de ir e ficava duas horas antes esperando (risos).
S: O basquete foi sua primeira opção?
G: Foi. É muito legal. Eu sempre falava que odiava basquete e agora é tão bom, é um esporte que você evolui muito. Não é só o basquete, só o esporte, isso te abre várias portas e através de um você conhece outro e troca experiência.
S: A visão que você tinha antes do esporte e a que tem agora possui diferenças?
G: Pouca coisa diferente, para mim ele continua no mesmo patamar. Só o que muda é a forma de como fazer as coisas e a pouca oportunidade. Aqui em Guarapuava eu conheço uns quarenta cadeirantes e tem mais pessoas que não conheço. Imagina se tivesse um esporte diferente e disponível para todas e isso faz sentir bem, alegra o psicológico. A dificuldade é muita, mas se houvesse mais opção de lazer tinha mais pessoa mais felizes.
S: Há algo além de esportes que você pratique?
G: Academia. Tem muita coisa que não consigo fazer na academia, mas também que posso fazer. Eu brinco, chego pedindo para fazer esteira e bicicleta e passa o tempo que nem vejo. Faço duas vezes por semana, e conforme vai evoluindo também vou aumentando os pesos normal. Acho que tudo que queremos é só ter força de vontade de fazer.
S: A acessibilidade em Guarapuava como é?
G: Aqui na cidade é muita subida e descida, quando encontro uma rua reta fico tão feliz (rindo). A cadeira embala e quando coloca a mão para frear queima e nas decidas ou machuca a mão ou cai. Dizem que aqui tem rampa, mas as rampas são muito inclinadas e você acaba precisando de alguém para ajudar a subir e tem lugar que tem a rampa, mas não precisa.
S: No ônibus como é a acessibilidade e o respeito das outras pessoas?
G: Alguns dias atrás cai do ônibus aqui, o motorista baixou a rampa em um morro de terra e não vi, na verdade, só vi quando tombou. A acessibilidade está boa, a maioria dos ônibus tem e funciona. Já peguei ônibus que não funcionava, mas as pessoas que estavam no ônibus me ajudaram erguendo a cadeira. Tem também um lugar no ônibus que é para os cadeirantes e algumas pessoas não respeitam.
S: Tem algo que você quer falar incentivando as pessoas a praticar esporte?
G: A pessoa que faz esporte é mais ela, se sente melhor, faz bem para a saúde e tem uma vida mais ativa. Tem algumas pessoas que são mais agressivas e bravas que com o exercício relaxa. Você se sente bem, aliviado e te traz mais felicidade. É uma vida que todo mundo deveria levar.

Texto: Sabrina Ferrari 

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